quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O botão vermelho, Alice, o botão vermelho...


Dois toques, resposta alguma. Naquela semana houve minutos dos quais fora complicado respirar.  Ela teve de escolher entre confiança e velas perfumadas. Velas perfumadas são mais fáceis de encontrar no mercado da esquina. Confiança é tão, tão, tão somente. Além do mais, velas de jasmim são tão raras de se encontrar que a confiança podia ficar pra outro dia.

- Jasmim, J-A-S-M-I-M! Jaaaaaaaaaaas-mim!
- Oi? Posso ajudá-la?
- Jasmim!
- Oi?
- Jasmim, quero as velas de jasmim!
- Ah, sim. São 5 moedas.
- Moedas?
- De 20.
- Ah!

5 moedas de 20? Porque não uma moeda de 1? Que loucura! Porque tantas regras pra se comprar velas de jasmim? Felizmente ela tinha as cinco moedas, felizmente ela também seguia regras. Regras, regras, regras. Era sempre assim, acordar ás 6:12, dormir às 21:54. Sempre no mesmo horário. Sempre dois ovos no café da manhã, sempre um chá ás 9:40, sempre velas perfumadas no canto direito do aparador. Sempre o batom rosa carmim, a tiara vermelha e os sapatos de bailarina. Sempre quis ser bailarina, bailarina de panturrilhas grossas e braços longínquos. Mas sempre tão desajeitada, nada flexível. Nem graciosa era. Era bela, sem dúvidas, bela como ninguém. Mas sem jeito, sem graça, derramava sempre um pouco de chá sobre os rabiscos do seu Moleskine cor salmão. O único Moleskine salmão que já viu na vida era seu, e se orgulhava disso. Acendeu as velas e se sentou pra ler um romance de Garcia Marquez. Mas estava confuso demais, e o cheiro a embriagara, jasmim era sua droga favorita, nunca fora de beber, exceto uma vez, no ensino médio, quando Gabriel Antunes quebrara seu coração. Primeira paixão sempre machuca, e a dela aconteceu bem na época do grunge e da popularização do estilo Kurt. Era o máximo se embriagar naquela época. Ao certo o vício não perdurou, não nela. Seus amigos da época têm hoje vidas conturbadas, alguns morreram de cirrose. Não, não morreram, mas algum dia, quem sabe. Botou também um Malboro na boca, há uns anos atrás, mas desistiu, depois de se engasgar com a fumaça. O cheiro de jasmim bastava, só jasmim. Jaaaaaaaaaas-mim, como ela adorava pronunciar. Jasmim, tantas outras flores mais refinadas, talvez mais populares, orquídeas, hortênsias, lírios. Mas pra ela jasmins eram os melhores, o melhor aroma de todo o universo e galáxias vigentes.
Mais dois toques, talvez fosse melhor esperar o terceiro, mas era seu código, dois toques. Dois  toques, era ela, porque não responder, evidente, era ela. Porque tanta dúvida? Talvez não houvesse ninguém do outro lado, teria saído pra comprar pó de café, talvez tivesse ido buscar a correspondência, mas, aquele era o horário, o horário de sempre. Nos últimos 15 anos, o telefone sempre tocava no mesmo horário, dois toques, uma resposta, sempre. Mas hoje não. Aquilo não estava certo. Durante quinze anos sempre fora difícil encontrar velas perfumadas de jasmim, e o telefone sempre tocara no mesmo horário no outro lado do mapa. Porque hoje não havia resposta? Porque hoje o estoque de velas de jasmim era tão extenso, como nunca antes? Devia ter ficado com a confiança.

- Oi.
- Quem é – disse a voz do outro lado.
- Sou eu.. Alice.
- Alice? Você está viva? – soou mais sincero do que o esperado.
- Talvez! Só liguei pra saber se você sabe dele.
- Dele quem?
- Dele.
- Pedro?
- Sim.
- Porque? Vocês não se falam todos os dias? Porque eu saberia?
- Porque hoje não houve resposta.
- Esperou os dois toques?
- Claro que sim.
- Vou tentar, talvez haja algum problema nesse seu telefone dos anos 80.
- Obrigada, Verônica.

Verônica deu dois toques, três, quatro, seis toques, até escutar a mensagem do outro lado:

- Olá, aqui é o Pedro, no momento estou fazendo algo mais interessante do que responder ao seu telefonema, ligo quando o jogo terminar, beeeeeep.
- Pedro, sou eu, Verinha. O que foi? Alice já está, como sempre, inquieta a sua procura, o que você está fazendo que não respondeu aos seus esperançosos dois toques? Não me diga que não está em casa, eu sei que você está em casa. Você nunca saí desse ninho fedorento. Você tem dois minutos pra jogar esse tabuleiro de lado e me retornar. Não quero Alice bêbada outra vez.

Não, Pedro não estava lá, nem estava jogando. Aliás, Pedro estava lá sim, só não podia mais responder.

- Alice, não sei o que foi, Pedro não me responde.
- ...
- Alice?
- Obrigada, Verinha.
- Ei, você está...? Você está chorando, Alice?
- Não.
- Alice... Alice, me responda.
- ...

Pedro e Alice, Alice e Pedro. Uma dupla sensacional, dois covardes, dois mortos. Agora sim, mortos. Pedro morreu naquele dia, Alice se matou naquele dia. Que amor mais covarde! Que amor mais lindo! Pedro já estava morto há 24 horas, morreu no dia anterior, depois dos dois toque de Alice. Havia uma mensagem gravada no telefone de Alice, tão velho, que nem ela mesma sabia da existência de uma secretária eletrônica.

- Aqui é Alice, merda... Isso não funciona, porque estou gravando isso? Deveria ter comprado um modelo mais moderno como Verônica disse. Como cancelo isso?
- Alice, aqui é o Pedro, minhas pernas doem, não sei porque. Faz alguns meses que não nos vemos e você não chegou a conhecer os meus hematomas, tão doces, você adoraria – risos- Alice, estou sentindo mais dor que o habitual, vou ao médico, talvez me internem pra exames, caso não atenda aos toques, enfim, você conhece esses médicos de hoje, tão preocupados. Só que não. Te ligo assim que souber o que aconteceu. Ah, estou morrendo de saudades. Você sabe, eu te amo, hoje ainda mais, mais que o habitual. Acho que nunca senti amor como hoje.Te amo Alice.

Pedro morreu ali mesmo, olhando pras velas empoeiradas de jasmim, nunca acesas, presente de Alice. 





(...)
Alice, sua tola, era só apertar o botão vermelho da esquerda.




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